o mundo ainda acredita nos hippies?

18 ago
Woodstock, 1969. Foto publicada na Life

Woodstock, 1969

Esse final de semana marcou o aniversário de 40 anos de Woodstock. Você sabe disso, saiu até na Globo. Mas também marca o auge e término de toda uma geração que acompanha o imaginário popular desde então; os hippies. Figurinhas estranhas e caricatas, que se tornaram a imagem de uma época. Eles só reverberaram alguns pensamentos que surgiram anos antes, e o encontro em Bethel, durante os dias 15, 16 e 17 de agosto de 1969 foi uma grande festa regada a ácido, rock, sexo e muita desorganização. Evento extremamente importante para o futuro dos grandes festivais, mas seu discurso não perpetuou. Culpa dos hippies.

Volta para as décadas de 40 e 50. A sociedade norte-americana vinha de um período entre-guerras extremamente chato e previsível. O medo ainda pairava nas casas de todas as famílias que tinham se envolvido de alguma maneira com os combates. O sistema tecnocrata ganhou força nesse panorama, oferecendo segurança e estabilidade para chefes de família, enquanto eram transformados em grandes engrenagens do estado. Bem cômodo. As mulheres mantinham suas atividades domésticas (outro atraso) enquanto crianças e jovens recebiam todo o tipo de ocupação conduzida. Todas as reações eram previstas e esperadas… até o ato de “transgredir” lendo uma Playboy, fazia parte do esquema (junto com a idéia agregada de “homem ideal” nos anúncios das páginas da criação de Hugh Hefner). Problemas e demais crises existenciais já contavam com um profissional específico com sua solução. Caso não tivesse uma resposta, era considerado um sentimento isolado… uma irrealidade. Sabe aquela imagem da família ideal? Então.

Alguns loucos e pensadores  já tinham largado mão disso tudo e se jogado pelo mundo. Foram os beatniks que começaram com todo o ideal sustentado anos depois pelos hippies. Mas de uma forma mais suja e crua. Antiintelectualismo, percepções sensoriais, negação de regras e o resgate da cultura oriental. Vai lá em Kerouac, Ginsberg e Burroughs. Reflexões sobre o novo comportamento urbano surgido com os hipsters, no final dos anos 40. O jovem buscava diferentes maneiras de escapar da sociedade. Coloca nessa equação uma boa dose de tendências românticas, boemia e experiências lúdicas típicas dos beats. Clima perfeito para o início da Contracultura. A grande negação dos valores passados pelos pais e mais velhos. Não assumir os costumes e gostos tradicionais e muito menos ter uma vida já esquematizada. Esse grande “não” aconteceu com a música, teatro, cinema, literatura e principalmente nos quadrinhos (Zap Comix e toda a turma do Crumb foram os grandes nomes da Contracultura, já que era a única manifestação artística dos jovens… sem referenciais espelhados nos pais).

Os hippies não criaram nada de novo, só repetiram um discurso com ideais que já eram cutucados… e colocaram um pouco de mimimi na história. Tipo uns emos dos anos 60. Inocentes, sensíveis, acreditando na solução com o amor idealizado. Fail. Kerouac morreu, e nunca aceitou os hippies como “filhos”. Ai chegam os fatos bizarros; reunião em Washington para tentar “levitar a Casa Branca” e conquistar o fim da Guerra do Vietnã? O caos instaurado em São Francisco com o fatídico “Verão do Amor” de 1967? “Paz e Amor” nas mortes registradas durante o trágico festival de Altamont? (fruto da megalomania de Mick Jagger; os Rollings Stones não estavam em Woodstock, então criaram um festival maior) A “era de aquários”? Charles Manson, líder espiritual? Eventos que entraram para a história muito mais como piadas, do que pelo seu valor social digno de orgulho.

Por outro lado, esse é o grande início da cultura jovem, que já tinha começado de forma tímida com Bill Haley, Elvis Presley e ganhou voz com os Beatles, Bob Dylan e Stones. O jovem como mercado em potencial, ai está a grande herança deixada pelos hippies (irônico, mas foi justamente o seu final). Eles se tornaram um produto. O choque com o extremo se transformou em consumo. Em pouco tempo, as grandes lojas já vendiam artigos inspirados no visual hippie, o musical “Hair” invadia palcos e telonas de todo o planeta… até a televisão brasileira começou a criar personagens hippies em seus programas (Jô Soares, Golias, Seu Peru na “Escolinha do Professor Raimundo”, o Tuco, na primeira versão de “A Grande Família”, todos hippies…)

Li esse final de semana que o local onde aconteceu o Woodstock, conta atualmente com proibições contra cigarro, drogas, música alta… coisa de gente cansada e desiludida com tais causas. Tipo um trotskista que hoje apóia o capitalismo. Sem o choque (e embasamento), o discurso deles ficou vazio e todo seu estilo de vida assumiu uma certa normalidade. Uma camiseta do Che Guevara. Ficaram inofensivos, comportados, caretas… e entraram nos eixos. Atitudes mais estranhas de hoje, são relacionadas a “fases da juventude” e várias vezes não são levadas a sério. A turma do “paz e amor” preparou o terreno para os que vieram depois e conseguimos tocar a vida de um jeito bem diferente de nossos pais. Mas do nosso jeito… sem um discurso pré-estabelecido e com risco de deslizes. Somos o que somos e nesse sentido os hippies tiveram lá sua importância…

Uma resposta to “o mundo ainda acredita nos hippies?”

  1. gabis setembro 9, 2010 às 11:41 pm #

    Já que estamos numa viagem acadêmica, vou escrever uma citação aqui, rs:

    “Evidentemente, numa tal sociedade todas as idéias novas são alimento para o lucro. Os desvios estilísticos e as inovações de estilo não são exceções a esta regra, e aquele/aquela que se veste para chocar terá de esperar ser acolhido a/como o último grito da moda.”

    (Elizabeth Wilson, 1987, pág. 273)

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