escatologia comportada

20 out
foto: @yadayadayada

foto: @yadayadayada

I – o rio de janeiro curitibano

Se você acompanha bem de longe o que rola em Curitiba, com certeza já ouviu falar nestes dois nomes. Bonde do Rolê e Copacabana Club. O primeiro foi direto para a gringa e tem gente que até hoje pergunta de onde esse grupo de funk-carioca-sem-etiqueta surgiu. “é daqui mesmo? como assim?”. O segundo já é uma promessa pronta, agradou ao público, crítica, donos de bares, rádios, músicos, molecada, indies velhos, mtv, levis, kanye west e os curiosos de plantão. Consumido de todas as maneiras para ninguém carregar o peso da omissão nas costas. A comida de bola com os Rolezentos ainda martela a cabeça de alguns jornalistas e público por aqui… Agora, todo mundo quer tirar uma lasquinha dos Copas.

Duas facetas escancaradas. A sensual malandragem dos morros cariocas disputando espaço com a importada e elitizada “princesinha do mar”. Impressionante como dois lados do Rio de Janeiro são absorvidos para buscar uma noção de brasilidade nos pinheirais. Cada um de um jeito… e com identificação declarada. Lindo. E foi esse duelo musical que o reduzido público presente testemunhou. Um capítulo da recente história musical alternativa da cidade… “Alternativa” no caso é o que NAO é psychobilly, NAO é hardcore, NAO é emo, NAO é hip hop, NAO é eletrônico (hum), NAO é pop (huuum…), NAO é mod…

… é o que sobra. E a sobra é grande.

Mas funk carioca universal? Só em Curitiba isso poderia acontecer. Uma forma de chocar as pessoas e modernets de plantão… uma brincadeira de mau gosto, feita por NAO músicos sem noção. Só daria certo aqui…

II – carnaval de bosta

(Deixo aqui as descrições sobre a noite e entrevistas para o Felipe Gollnick, do Defenestrando. Pulo direto para os shows)

Enquanto é bonito ver o Copacabana Club no palco, a experiência sensorial de uma apresentação do Bonde do Rolê pode não ser das melhores. Sons, cheiros e gostos (para quem ficou perto do palco) misturados ao batidão pop esquizofrênico.

Os Copas não contam só com a simpatia e charme das danças hipnóticas de Caca V. Ou das coxas da Claudinha… a guitarra levantada do tímido Alec ao lado de Tile, que as vezes fica de costas para o público e “bate a cabeça” quando é mais exigido no baixo. Muito menos do Rafa Martins, que acaba de assumir o lugar de Luli Frank na guitarra… é todo o conjunto da obra. O Copacabana Club é uma banda de palco. Se você nunca viu uma apresentação deles, não julgue pelas primeiras escutadas. Eles ainda ganharam o reforço das bases de Rodrigo Stradiotto, produtor do EP. De um jeito ou de outro as composições acabam caindo em algum lugar comum da música alternativa, mas é bem feito. Contagia. Seus ouvidos e olhos agradecem o espetáculo. E eles retribuem os agradecimentos. “Obrigados” e mais “obrigados” de todos os lados…

“Retribuir” foi um dos pontos de partida do Bonde do Rolê. Eles não tocavam por aqui há 3 anos. Na época,  já tinham sido reconhecidos pela Rolling Stone gringa, esboçaram uma turnê americana ao lado do CSS e Diplo, e estavam na capa do Estadão e Folha (com uma possível série de shows que aconteceu na Europa, lembrada pelo Pedro). Enquanto poucos veículos de comunicação locais dedicavam algumas palavras a eles. Foram duas apresentações antes de partir para os Estados Unidos. A última, ao lado do CSS, para um público de quase 30 pessoas (eu estava lá). Quase não receberam o pagamento. Se é que receberam.

Ai a equação fica bem fácil de resolver: o início conturbado na cidade + total ausência de noção + tendências escatológicas = a um show de bosta. E foi isso. O Bonde do Rolê veio para jogar a merda no amplificador… mas segurou a onda. Os preparativos para as “fezes artificiais” (antes que alguém ai se incomode com o sentido literário do termo… “bosta”), à base de chocolate em pó, maizena, milho e outros ingredientes, foram embalados pela sensação de “retribuir”. Pensando bem, o troco nem era tão importante (não existe rancor no discurso deles), mas a piada seria ótima! Isso porque a banda nem sabe ao certo se é curitibana. Nenhum integrante atual nasceu aqui e muito menos mora em Curitiba. Gorky e Pedro começaram a reencontrar amigos, conversaram com fãs e ficaram em um zigue-zague social com Laura e Bernardino sendo apresentadas a todos. Amoleceram. Deixaram o lado infantil nas roupas de bebês e fraldas, e conduziram o cocô somente no palco (claro, quem subiu no palco saiu “cagado”). Foi um dos melhores shows que a cidade recebeu no ano.

O mais impressionante é que eles sequer provocaram o público com a mistura de texturas e odores que pairava no palco. Não precisou. Os fãs se jogaram na lambança. Em vários momentos o palco foi tomado por vinte, trinta pessoas que agitavam e se esfregavam. Anarquia escatológica embalada pelo funk e os vocais gritados e roucos de Pedro, Ana, Laura e Gorky. Quer ver alguém dar o sangue em uma apresentação de pouco mais de 50 minutos que não para (não para, não)? Clica em um dos vídeos…

… o melhor é que nenhum integrante da banda jogou o falso cocô nas pessoas. Sempre tinha alguém em volta jogando merda no outro. Fica a dica de uma metáfora bem interessante…

III – banho e sábado de cinzas

Foi isso. No dia seguinte as duas bandas partiram para Porto Alegre. Levaram um pouco do lado carioca-curitibano-universal para os gaúchos. Assim como levam para os palcos paulistanos, mineiros, recifenses, ingleses, japoneses… por aqui, tudo segue normal. Mais solto e relaxado, como uma boa descrição de pós-cagada que só Charles Bukowski poderia escrever.

videos e fotos do @yadayadayada

5 Respostas to “escatologia comportada”

  1. Omar outubro 21, 2009 às 12:43 am #

    Maneiro, Guga.
    Fiquei pensando nisso aqui: “Impressionante como dois lados do Rio de Janeiro são absorvidos para buscar uma noção de brasilidade nos pinheirais”.
    Achei Interessante.

  2. Felipe Gollnick outubro 21, 2009 às 12:57 am #

    cara, você tem que fazer esses textos mais frequentemente. tá ótimo.

  3. subtropicalia outubro 21, 2009 às 3:29 am #

    só caiu minha ficha na hora que eu tava escrevendo o texto… foda, né?

  4. subtropicalia outubro 21, 2009 às 3:30 am #

    valeu, felipe! na real é tudo uma questão de organização… vc sabe como é! =)

  5. Omar outubro 21, 2009 às 5:24 pm #

    Vale um outro texto só sobre isso, hein?

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