livro, filme, disco e lembrança

26 dez

Willie Dixon, Muddy Waters e Buddy Guy... lá por 1963

Clima de final de ano sempre pede algumas revisões. Normal… final de um ciclo. A gente acaba caindo nesses pensamentos entre um porre e outro de natal e reveillon…. diretrizes e avaliações que são esquecidas, mas ficam no ar durante 365 dias…

Tem uma passagem que me marcou bastante no “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby (ok, uma delas). O surtado Rob Fleming  decide reorganizar toda sua coleção de discos. O caminho seguido vai bem longe da ordem tradicional das coisas, baseadas no alfabeto, ano ou gênero… Ele resolve arrumar os álbuns pelo momento de sua compra. Uma revisão do passado para poder lembrar quem ele realmente é. Ou foi. A compra dos discos X, Y e Z. O que ele estava fazendo naquela época, quais eram suas perspectivas e tudo mais que possa dar o mínimo de conforto e individualidade a uma pessoa em crise. Super válido.

Lembrei disso esses dias… depois que assisti “Cadillac Records”. A história da Chess Records contada de forma bem honesta e que foge do climão biopic (que retrata um longo período histórico e acaba arrastando personagens dispensáveis por toda a trama). Dirigida por Darnell Martin, a fita segue os passos de Leonard Chess e Muddy Waters, interpretados por Adrien Brody e Jeffrey Wright, respectivamente. As duas figuras centrais da Chess Records (só não parei para pesquisar o motivo da ausência de Phil Chess no filme). Testemunhamos ainda o surgimento de nomes como Etta James, Howlin’ Wolf, Willie Dixon, Chuck Berry e até uma aparição relâmpago dos Stones. Um retrato bacana de uma das gravadoras pioneiras no mundo R’n’B.

Então… sobre a passagem dos discos do Rob Fleming (quase me perco).

Pega esse clima de final de ano, com um surto bem “flemingniano”, e a história da Chess Records… lembrei de “Folk Singer”. O primeiro LP que comprei na minha vida pós-infância-com-discos-da-xuxa-e-histórinhas-da-disney. Nunca conseguiria estabelecer uma ordem de aquisição dos meus álbuns, mas esse primeirão é marcante (assim como “Miles Ahead”, mas ai é outra história).

E eu nem tinha vitrola na época…

Passava longos períodos olhando as fotos da capa, imaginando o clima no estúdio, a pegada acústica e crua nos lamentos de Muddy. Foram longas horas ouvindo o disco somente pelas fotos. Eu era molecão… tinha acabado de entrar na faculdade e queria ouvir música de verdade. No vinil. Mesmo sem vitrola. A minha cópia é de 1988, lançada cinco anos após a morte de Muddy e bem longe do louco ano de 1963 (quando o disco foi gravado). Seu selo é daqueles poluídos e sem a menor elegância, encontrados em LPs lançados a partir dos anos 70. Detalhe; cheio de “eu te amo” escrito pelos dois lados (alguém se deu muito bem ouvindo suas nove faixas). Ai está o charme especial da minha edição; já veio com uma história paralela.

Eu sabia toda a ficha técnica dele, qual faixa não contava com a participação do jovem Buddy Guy, os detalhes da produção de Ralph Bass e do grandalhão Willie Dixon. Estava intrigado com o “folk” do nome e a história da lendária gravação no campo, feita em 1941 pelo folclorista Alan Lomax. Imagina como seriam esses registros?! Rústicos, vivos e o exato momento que McKinley Morganfield se tornou Muddy Waters. Nascido em 1915 e reconhecido por ser um dos primeiros nomes que chocou a audiência com blues elétrico. Ganhou os negros, brancos e foi um dos responsáveis pelo sucesso da invasão britânica nos anos 60 (quem você acha que foi a grande inspiração dos Rolling Stones?). Até resolver entrar no estúdio da Chess Records e chorar esse disco… acústico. Mostrou onde é que estavam as verdadeiras raízes da música norte-americana. O verdadeiro folk singer.

Um pouco disso tudo está lá em “Cadillac Records”. Vale muito mais do que a pipoca (até a Beyoncé está segurando bem sua atuação como a incontrolável Etta James… ainda mais nas gravações de “At Last!”. Sério…). Foi ótimo poder ver isso na telona e, de quebra, lembrar um pouco quem fui/sou e qual é uma de minhas origens.

Algumas paixões e fascínios escondidos… esqueça a motivação, o que interessa e a sensação despertada. Sempre é.

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