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“Sketches of Sao Paolo” (punx e o jazz)

3 dez

foto de Fabio Ahmad

Guizado é mais um sinal dos tempos. O projeto paulistano encabeçado por Guilherme Mendonça já entrou para o ranking de melhores do ano com o lançamento do disco “Punx”. O motivo? Bom, só em uma primeira escutada lembra a ousadia do álbum “Bitches Brew”, de Miles Davis, com a sujeira pós-moderna do duo francês Justice. Mas como eu disse, isso em uma primeira escutada. 

Eu sempre reclamei sobre a tal vanguarda do jazz. Esse bendito gênero que tem a capacidade de conviver com diferentes períodos ao mesmo tempo em um ciclo atemporal. Diálogos entre presente, passado e futuro, com novas produções que passeiam pelo swing, bebop, free, cool, fusion e eletrônico, sendo lançadas todas as semanas. Para ouvir isso eu prefiro continuar com os clássicos. Sem nenhum ressentimento. Só Miles Davis produziu material para uma vida inteira de descobertas musicais. Duke Ellington, Mingus, Coltrane, Monk, Piazzolla, Jobim e alguns outros ilustres também já são mais do que suficientes para outras vidas. Qual o motivo para eu e você nos desgastarmos com novidades que rascunham mais do mesmo? E o gênero eletrônico tem que tomar cuidado… já está caindo em um lugar comum que ofusca seu brilho inicial dado nos últimos sopros de Miles (de novo ele).

Porém, novas frentes jazzísticas que merecem atenção surgem em Quioto, Berlim, Chicago (material para outras conversas) e São Paulo. Ah, São Paulo… talvez a grande inspiração para o Guizado. Mas será que “Punx” é um disco de jazz? Uma produção que aponta uma nova etapa do que pode ser feito em um dos principais estilos musicais, surgidos no início do século passado e responsável por tudo o que escutamos hoje? Tudo mesmo. Perguntas e mais perguntas que só tornam o trabalho de Guizado mais intrigante.

“… Guizado is not jazz” é a resposta para uma das perguntas que está presente em um texto inicial de sua página do Myspace. De fato, ele não é… mas ao mesmo tempo é. Não carrega nenhuma convenção do estilo… mas o espírito esta lá, capaz de conviver com uma babilônia sonora… mas não “organizar”. Os sons surgem naturalmente. A trangressão, o uso dos instrumentos e sintetizadores a favor da música, longe de virtuosismos punhetais e egoísmos típicos de um frontman qualquer que sofre de “paulemolência” (como diria Lobão). Mendonça, teoricamente, é o principal figura dessa história e em alguns momentos só entra para dar uma pincelada nas cores da música. Isso já é jazzy o suficiente.

Ele também esta longe da figura estereotipada do jazzista. Nada de ternos alinhados ou roupas hippies, chapéu e discretos óculos escuros, como ele mesmo assume em uma entrevista dada para a +Soma, que pode ser vista aqui. Entra em cena a calça larga e o boné típico do hip hop. Assim como em suas músicas. Junto com o rock (e o post-rock), sons latinos, africanos, psicodelia e batidas eletrônicas. Cai Duke Ellington como despertador musical e entra Jimi Hendrix. Kerouac flutua com suas idéias. E São Paulo se ouve ali. O noir esfumaçado é substituído pelo graffiti colorido. Isso tudo você pode ouvir em suas declarações lá no vídeo da +Soma (de novo, aqui).

Por isso Guizado é um sinal dos tempos. Capaz de assimilar toda uma herança musical e mais do que diversificada do século XX, com ecos de uma vanguarda paulistana e muita personalidade. Ele conseguiu resumir o (bom) som da capital paulista em um disco. Lá você pode identificar o rigor distorcido do Hurtmold, junto com melodias arrastadas do Cidadão Instigado; a atitude do Instituto e a sagacidade do Curumim. E garoa. Isso também acontece porque ele chega acompanhado por músicos integrantes das bandas citadas. Curumim é o responsável pela bateria, dividida com M. Takara durante as gravações. Ainda conta com o baixo de Ryan Batista e Regis Damasceno na guitarra – ambos do Cidadão Instigado – o acompanhando nos shows.

Trilha para um passeio do Blade Runner pela Rua Augusta enquanto policiais sacam as “primas” que passam em frente ao Ibotirama, e ouvem Fela Kuti ao lado de uma mesa cheia de meninas tatuadas. O caos e a solidão em clima futurista de festa e batuque. “Punx” é pós-moderno pacas (e isso está longe de ser uma observação cabeçuda). Um bê-a-bá para jovens e veteranos em campos experimentais.

A faixa “Rinkisha” mais entrevista no Tramavirtual.

“gameboy”!

 

(alguém sabe de quem é o crédito da foto que abriu o texto? o denis, inmwt, descobriu!)

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É

21 out

É bonito ver a apresentaçao de Marcelo Camelo e Hurtmold.  O ballet dos músicos paulistanos transformando em sons as sensações do compositor carioca. O sorriso estampado e constante naquela figura barbuda, alta e magra… que as vezes varia entre o riso nervoso de estar sozinho enfrentando um novo desafio… e o público. Cantando junto todas as músicas do primeiro trabalho-solo de Marcelo Camelo… o disco “Sou”. O sorriso de Camelo aumenta. Foi bonito ver essa apresentação na última sexta (17) em Curitiba. Bonito. E a definição é simples assim, porque é isso. Como o disco… não tem mistério. Ele te dá várias possibilidades de interpretações e respostas… pode ser bem cabeçudo para quem quiser… mas no final das contas são notas e acordes que escorregam em seus dedos, ilustrados por um clima “de bem com a vida” nos quase sussurros. Não é triste, nem piegas… mas melancólico. E melancolia nos acompanha desde os primeiros acordes do samba… Camelo só foi fiel a algumas influências (entre as várias que o acompanham em “Sou”). 

Pronto… esta é uma interpretação… obrigado, Camelo.

BR Press

Foto: BR Press

Quando anunciado que o músico tinha disponibilizado algumas novas composições em sua página do Myspace, o que se ouviu ali parecia o experimento de uma egotrip… Pé atrás logo de cara… mas o resultado final provou o contrário. Ainda mais depois que notícias falavam sobre as participações de Mallu Magalhães, Dominguinhos, Rob Mazurek… e o Hurtmold. A parceria do ano. E se isso já tinha ficado claro com o disco… no show fica iluminado.

O Hurtmold pode se transformar em 5 ou 6 bandas diferentes, entre uma música e outra. Exatamente o que “Sou” precisa. Ao vivo as composições ficam gigantes e com fugas que respeitam a individualidade de cada um no palco. Do arranjo que vai crescendo em “Janta”, bem diferente da linearidade do disco… até as explosões em “Menina Bordada” e o risco de quase classificar como pós-rock outras passagens (injustiça). E ai voltamos ao ponto de partida… é bonito ver isso.  Continue sorrindo, Camelo.

“Menina Bordada” no show em Curitiba: